O padeiro português que dá pão a quem tem fome na Venezuela

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Cristiano Neto começou a distribuir pão numa moto, em 1955, tinha 17 anos. Hoje tem uma das maiores fábricas de Caracas e lamenta a fome que vê na cidade. “Eles vão sair, mas devagar… Muita gente diz esperançada que as coisas vão mudar rápido. Eu não acredito. Vai demorar algum tempo. Vai haver mais fome, muito mais fome. Um dia vou querer sair de casa e não há gasolina”.

Sobre a situação que se vive na Venezuela o português da Anadia mostra-se muito desgastado. “Passa-se muita fome. Inclusivamente há portugueses a passar fome. Mas nunca falam do assunto. É uma pobreza envergonhada”.

Diz que o cônsul de Portugal, que é seu cliente diário, já lhe pediu que quando identificasse portugueses com dificuldades, que os mandasse ir ao consulado.

Uma senhora lamentava que não sobreviveria sem insulina. “Já lhe comprei umas embalagens, tenho aqui para lhe dar, mas não aparece” diz Cristiano, preocupado.

A crise não afeta o negócio do pão porque é um dos produtos mais baratos, e que enche a barriga. “tenho todos os dias filas à porta”.

O que vai acontecer a este país?

“Eles vão sair, mas devagar… Muita gente diz esperançada que as coisas vão mudar rápido. Eu não acredito. Vai demorar algum tempo. Vai haver mais fome, muito mais fome. Um dia vou querer sair de casa e não há gasolina”.

Faz-lhe muita pena as pessoas que chegam junto da padaria a pedir ajuda. “Parte-me o coração”… Cristiano não nega ajuda a ninguém. Vai dando a quem pede. “Nem imagina o pão que eu dou diariamente”.

Mais grave, “chegam a andar à zaragata por causa de restos no lixo, mete dó”.

Cristiano Sousa Neto nasceu em Coimbra, mas é na Anadia que tem a sua propriedade onde vai descansar umas três vezes por ano. Tem 82 anos, não parece ter mais de 70. Ágil, decidido, raciocínio rápido. Com dois molhos de chaves na mão está sempre a dar ordens. É ele que controla o negócio.

Tem dois filhos, que ajudam em Caracas no negócio do pão. Uma neta de 27 anos que está a trabalhar num hotel britânico nas ilhas Canárias e dois netos mais pequenos, de 11 e 13 anos que estão em Coimbra.

Chegou a Caracas com apenas 17 anos. O emprego que arranjou no primeiro momento foi a distribuir pão com uma motorizada.

Quatro anos depois já tinha percebido como funcionava o negócio e abriu a sua primeira padaria. Chamava-se Los Nietos.

Em 1967, com trinta anos, abriu a La Rosita, na zona de Campiña, leste de Caracas, a atual padaria onde se veem a toda a hora filas de clientes.

Os principais clientes são lusodescendentes, galegos e italianos. “Talvez 60% de toda a clientela”.

Começou apenas a vender o pão, mas com o tempo foi alargando o espaço, fez a fábrica, os armazéns. Hoje é uma área enorme, com dois fornos de 14 metros, que fazem 300 pães de meia em meia hora.

Mostra à equipa de reportagem da Lusa todas as instalações. Tem uma autêntica linha de montagem, com funcionários a fazerem a massa, outros a partirem o formato do pão, outros a meterem em tabuleiros, outros junto ao forno. Cristiano tem 34 funcionários.

O negócio foi desenvolvendo e hoje Cristiano é dono de todo o prédio, alugando os 22 apartamentos que estão por cima da padaria.

“Não, não vivo aqui. Sempre achei que deveria viver afastado do trabalho, para se conseguir descansar um pouco nas horas livres”.

Com orgulho aponta para os fornos: “Mandei vir de Portugal. São de Ramalhos, Águeda. 14 metros. 300 pães de cada vez”.

A razão de mandar vir as máquinas de tão longe é só uma: É que “as máquinas portuguesas são muito boas”.

O forno começa a funcionar às 02:00 da madrugada e só é desligado por volta das 20:00. É sempre a produzir pão o dia inteiro. Gasta entre 55 a 60 sacas de 50 quilos de farinha por dia. São muitos milhares de pães por dia.

Não sobra pão? “Nunca sobra! Há sempre filas na rua”.

Faz questão de nos mostrar cada um dos armazéns de farinha. “Ontem chegou mais um camião carregado de fermento, o que tenho aqui dá para produzir durante um ano, foram 73 mil dólares. Farinha tenho quantidade para um mês”. Orgulha-se de ser um homem precavido, num país onde falta de tudo. “Só uma vez nestes anos todos tive falta de material para produzir. E foram só dois dias”.

Diz mesmo que atualmente em Caracas metade das padarias não estão a fabricar por falta de material. “Comigo não acontece”, diz, com vaidade.

As dificuldades não lhe metem medo. Voltar definitivamente para Portugal não está nos seus planos. Mas já apanhou uns sustos valentes. “Já fui sequestrado, deram-me uns tiros no carro…” mas não quer falar mais nisso, vira-se logo para mostrar mais equipamentos e evitar um tema que claramente o deixou traumatizado.

Quando se fala de Portugal, lembra que fez lá as suas poupanças, duas casas no Algarve, duas propriedades em Cascais, “uma mesmo por trás da autarquia”, e claro a sua propriedade na Anadia.

Mas voltar, “não, nunca pensei nisso, nunca deixarei isto”, afirma sem demonstrar qualquer hesitação.

Mas, há uma razão para isso. É que consegue ir pelo menos umas três vezes por ano a Portugal. “Vou já em Abril”.