O português que está a revolucionar o ensino norte-americano

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A 28 de fevereiro, o superintendente das escolas do terceiro maior agrupamento americano era chamado a dirigir o sistema educativo de Nova Iorque, o maior do país. Recusaria o cargo para continuar o trabalho em Miami-Dade, a uma vida de distância do Bairro Alto, onde cresceu – mas sempre consciente do que é viver com muito pouco, até sem um teto, conta o Diário de Notícias.

O homem que há dez anos se senta na cadeira de superintendente do sistema educativo das escolas públicas da Florida mudou as vidas de muitas famílias e continua a fazê-lo todos os dias, indiferente a quão impopular isso o faça à luz das atuais políticas norte-americanas. É por isso que não podiam deixá-lo sair (veja o vídeo abaixo), mesmo quando o mayor Bill de Blasio o escolheu para liderar o departamento de Educação de Nova Iorque. O seu gabinete montou-lhe o que se pode chamar uma boa armadilha – um desfile de miúdos, jovens, mães e pais a declarar a importância de Alberto na vida que tinham conseguido – e em menos de 12 horas estava a recusar o convite para subir a Nova Iorque. O que não espanta por aí além quando se conhece este lisboeta nascido num Bairro Alto nos seus piores anos, um entre os seis filhos de uma costureira e de um zelador que não foram além do terceiro ano mas a quem reconhece ainda imensa sabedoria.

“Eu não seria filho dos meus pais se escolhesse o caminho mais fácil só pelo título que ganharia”, diz-me quando nos encontramos no seu gabinete e lhe pergunto porque tem sempre recusado uma carreira política. “Faço muito mais diferença no lugar que ocupo. Sei que facilmente ganharia se me candidatasse, mas como congressista seria um entre 435. Aqui tenho o poder executivo, à frente do terceiro maior sistema educativo do país (depois de Nova Iorque e Los Angeles).”

Noutros tempos, Alberto Carvalho foi o único dos irmãos a conseguir chegar ao fim do liceu – anos mais tarde, seria ele a ajudar o irmão dez anos mais novo a fazer a faculdade e tornar-se dentista em Lisboa, onde ainda vive a família. E a sonhar ir muito mais longe do que o mundo que via das águas-furtadas onde sempre vivera. Hoje, fala do que nunca poderia ter sonhado. “A nossa economia tem um excedente de seis mil milhões de dólares, temos 1,2 mil milhões para construir escolas – graças a um referendo popular que submeti a votação e 77% das pessoas aceitaram pagar mais impostos para isso, porque acreditaram.”

Numa comunidade cuja taxa de pobreza chega aos 75%, em que uma gorda fatia da população nem sequer fala inglês, as taxas de sucesso escolar e as notas conseguidas nos exames estão entre as melhores do país. Resultados conseguidos com muito trabalho. “Quando eu cheguei aqui, despedi três quartos dos diretores de escolas – nessa altura não era muito popular… – porque eles tinham sido nomeados apenas por cunhas, por conhecerem alguém.” E se alguém conhece o poder do mérito e o que a educação pode fazer pelo futuro de uma criança é Alberto Carvalho.

Tinha 17 anos quando desembarcou sozinho nos Estados Unidos, em Manhattan, e quatro horas depois de chegar estava enfiado numa cozinha a lavar pratos e panelas para ter dinheiro para comer. Pouco depois conseguiu um emprego nas obras, a acartar sacas de cimento, tijolos e o que mais lhe fosse pedido. Mas foi quando o seu visto expirou que tudo piorou: menor, sozinho e agora ilegal, somava-se à lista de milhares de sem-abrigo a viver nos Estados Unidos – a forma como recuperou desses tempos fez dele um exemplo a seguir, tendo mesmo sido reconhecido no ano passado pelo Homeless Trust de Miami-Dade County. “Dormi na rua, debaixo da ponte, durante mês e meio, por isso sei exatamente o que é ter o chão como colchão e as estrelas como cobertor. Mas não trocaria a minha infância pobre e as dificuldades que passei por coisa nenhuma.” A razão é simples. É essa experiência que lhe dá a certeza de que todos os miúdos são inteligentes, e se alguns falham é pela estupidez dos adultos. “Já vi muitos adultos quebrarem o espírito, os sonhos e as paixões de crianças e o meu trabalho tem sido sempre o de desconstruir os sistemas, torná-los mais humanos, flexíveis e inteligentes.”

A liderar o maior distrito educativo do estado e o terceiro maior do país – é o único superintendente de uma área que tem 35 mayors -, Alberto consegue hoje influenciar positivamente a vida de 346 mil alunos, 150 mil idosos e 52 mil trabalhadores. A principal razão do seu sucesso? A permanente insatisfação. “Sempre que recebemos um prémio não ficamos ali a falar de como foi bom, antes discutimos onde não conseguimos exceder-nos e como lá podemos chegar. Temos uma taxa de graduação de 84%, acima da dos distritos mais ricos, mas eu concentro-me sempre naqueles 16% que não conseguiram. É assim que se progride, com o descontentamento permanente, com irreverência. Eu quero que me tratem como o Alberto, quero que sejam honestos comigo, que me digam onde errei e não que me deem palmadinhas nas costas, porque isso não ajuda ninguém. Hoje, a sociedade – aqui como em Portugal – preocupa-se muito com esses incentivos positivos, mas só com algum grau de controvérsia e divergência é que se evolui.” É por isso também que Alberto continua a procurar conselho em todos, desde a administração onde se senta aos motoristas dos 1200 autocarros que servem as suas escolas.

Alberto Carvalho nasceu em setembro de 1964 no Bairro Alto, em Lisboa, numa família de seis irmãos espartilhada numa casa com apenas um quarto e sem água ou luz. Aos 17 anos, com o liceu terminado e vontade de conhecer o mundo, embarcou sozinho para os EUA, onde trabalhou em cozinhas e nas obras antes de o visto expirar e se tornar ilegal. Durante um mês e meio, dormiu na rua, até um professor lhe mudar a vida: ajudou-o a legalizar-se, a estudar. Passou pela Broward College e pela Barry University e em 1990 formava-se em Biologia. Professor de Físico-Química no liceu Jackson Senior, tornou-se vice-diretor e foi ascendendo até superintendente das escolas de Miami-Dade, que ocupa desde 2008.