2CV: mais que uma viatura, um estilo de vida

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Ericeira recebeu o 22º encontro mundial dos Citroën 2CV. Foram dois mil carros, entre modelos raros, específicos de Portugal, de outros mercados e os últimos a saírem da fábrica de Mangualde. 30 anos depois do primeiro evento em Portugal, um casal alemão voltou a andar pelas estradas do Oeste. E fez jus ao slogan. Estão casados desde então. A culpa é da vida que levam. E do carro, claro.

Ceci n’est pas une voiture… C’est un art de vivre!”. Traduzindo à letra, a frase significa “isto não é uma viatura… É um estilo de vida!”. O autocolante é uma das características decorativas do vidro traseiro dos icónicos Citroen 2CV e derivados, onde se inclui o Mehari e as Dyane.

Isso mesmo foi constatado no desfile – 2CV Parade – que conduziu cerca de 250 destes icónicos carros entre a vila da Ericeira e Mafra, realizado ontem, 30 de julho, na véspera do encerramento da 22ª edição do Encontro Mundial dos Amigos do 2CV, confraternização que juntou cerca de 2 mil viaturas durante 6 dias.

Pela segunda vez em 30 anos, Portugal recebeu um evento que é ponto de encontro de quem partilha este modo de vida e paixão por um carro que nasceu à frente do seu tempo, de aspeto frágil, mas seguríssimo, e em que a (fiabilidade) mecânica é tudo.

Com uma legião de adeptos fiel, foi possível descortinar, em 2017, alguns repetentes da aventura portuguesa de 1987, na altura o 7º encontro mundial. Foi o caso de um casal alemão que vive nos Estados Unidos da América, em Seattle: Úrsula Walter e Axel Kalishe. Se estão juntos desde então, devem-no, seguramente, não só a paixão que nutrem um pelo outro, como também ao amor ao 2CV. E a tudo a que este modelo representa. A jusante a montante.

Em 1987, o Encontro Mundial dos Amigos do 2CV na Ericeira serviu para cimentar a relação entre os dois, que se conheceram enquanto membros de clubes locais na Alemanha, sendo que ambos já partilhavam do estilo de vida que acarretava a acarreta ter uma máquina destas.

A mulher, “Uschi”, fez mesmo questão de trazer um testemunho da sua primeira passagem pela vila piscatória e hoje meca do surf, exibindo uma camisola alusiva à concentração.

“Quando tens alguém que gosta de 2CV e o outro não, a relação pode não funcionar. Agora se os dois gostam, só pode dar certo”, realçou Axel Kalishe, condutor de autocarros urbanos na terra das startups e colecionador de 35 carros do género (17 de coleção) e expert de mecânica.

Kalishe fez o seu primeiro passeio em 1981. E é tudo uma questão de estilo de vida. “Tenho dois metros e o carro que estou serve de cama”, sorri, justificando que tem “Dois Cavalos” espalhados pela Alemanha, Estados Unidos da América e Austrália, participando nos encontros e eventos que se realizam nos três continentes. “Tenho um emprego (condutor) que me permite fazer mais de 70 horas semanais, acumular, para depois poder-me ausentar”.

Do raro Sahara ao Mehari Plage, um modelo de nome francês que foi somente português

Convento de Mafra, Palácio Nacional, no espaço museológico. Aqui ergue-se uma exposição de viaturas raras, desde carros exclusivos do mercado português e de outras paragens, aos últimos números a saírem da Fábrica de Mangualde, exatamente 27 anos depois do último carro ali produzido, celebrando igualmente os 50 anos da produção da Dyane.

Miguel Cid Trindade serviu de cicerone da exposição. Logo à entrada sobressaía o 2CV Sahara. “É o mais valioso. Um foi vendido em leilão, em França, por 140 mil euros. Tem o motor à frente e atrás”, explica. Segue-se o “modelo de mola”, de 1955, e o “belga com cores e acabamentos específicos de 1956”, continua.

Ali estiveram estacionados os carros que saíram da linha de produção de Mangualde, outros “dedicados ao mercado português, como o Mehari Plage, réplicas, o modelo 007, um modelo da GNR que está a ser recuperado, 50 unidades de uma encomenda da tropa francesa de Meharis que não avançou e a Dyane Nazaré, com estofos a fazerem lembrar as saias das peixeiras”, aponta um a um.

Entre os mais antigos e mais recentes há um que se destaca, propriedade de Fernando Ceia há 14 anos, sendo que passou 4 pelo restauro. De 1988, com cores da “Eslovénia”, veio da Suíça e tem três ecrãs de televisão, dá música e tem PlayStation. “O tablier em fibra de vidro demorou um ano a fazer e a restaurar”, desvenda.

Visita feita, cá fora, carros para todos os gostos e feitios, cores e anos, com as bandeiras das respetivas nacionalidades, em ótimo estado e a necessitar de uns retoques, com malas à frente e atrás, com adereços mais ou menos excêntricos, autocolantes de outros encontros, que arrastam atrás de si caravanas, com mais ou menos “invenção”. Estes, aos poucos, iam desmobilizando. Uns em direção aos seus países de origem, outros para a Ericeira. Todos a pensarem na edição de 2019, que se realiza na Croácia e que servirá, em simultâneo, para comemorar os 100 anos da marca Citroën.